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Os trens partiam. Fui comprar minha passagem mas o bilheteiro alegou que o idioma dos trens já tinha sido interditado e por isso já não poderia me vender ingressos para aquele trajeto. Perguntei qual era o nome do trajeto em cartaz, ao que seus lábios tremeram numa convulsão, e depois o corpo todo dele como que se trincou sem dizer nada. Não insisto: não tenho as perguntas programadas. Me afasto do guichê e olho, é preciso dizer que um pouco desolado, para os braços abertos de um relógio atravessando as horas. Será que vou ter que pedir carona? Nisso um homem se aproximou e disse que para quem perdia o trem havia sempre a opção de viajar de ônibus: a estrada fica logo ali, é só sair da estação. Ele tirou um olho da órbita e colocou na palma da minha mão. Minha mão sou eu? Eu sou o amor: dentro de mim ele verá. Depois o homem se afastou. Eu já tinha terminado meu cafezinho. Fui até um telefone público mas não telefonei para ninguém. Apertei o telefone contra o ouvido e ouvi o sinal de discagem: isso também era uma dança? O pulso da máquina solitária ao meu ouvido não me incomodava, fiquei ali de pé com o telefone no ouvido esperando para ver se alguma comunicação acontecia. Eu não queria simplesmente manipular os números: telefone respira. Eu tinha perdido o trem, e agora? O cego apontou a porta giratória. Ele disse: a saída. Depois o homem se afastou. Era cego e se afastou depois de me mostrar uma saída aparente, uma possibilidade. Era estranho: mediante sua órbita esvaziada, era como se um umbigo tivesse recém nascido na cara do cego! Para ver mais?

foto: charlene cabral
// porto alegre 2014foto: charlene cabral // porto alegre 2014

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É um pé-direito muito alto, e o tronco da árvore levanta-se por detrás de sua cadeira e vai até o teto, lá se amontoando (reflorescendo) e talvez saindo por entre as telhas para a copa se abrir ao ar livre, lá fora. Era bonito: seus galhos já nem eram heras, eram grandes tentáculos foliculados captando a essência do ar que a todos nos envolvia! Num segundo momento vejo que há ramificações dessa mesma árvore na parede onde ficam as estantes de livros, perto do teto. é como se um pedaço da árvore tivesse reverdejado por entre as páginas dos volumes: e um de seus galhos, comprido, belamente ondulado e com folhas de um verde novo, com palavras de um verde tenro em todos os subtons transluminosos, desce até bem perto de nós que estamos jantando e nos brinda com sua fresca sabedoria de flora nativa. Mas por que quero fazer da reunião dos Anônimos um sarau de poesia?